terça-feira, 25 de agosto de 2009

À procura de uma besta - ANÚNCIO DE JOÃO ALVES -

Carlos Drummond de Andrade

ANÚNCIO DE JOÃO ALVES


À procura de uma besta

Figura o anúncio no jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

À procura de uma besta
A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas seções em conseqüência de um golpe, cuja
extensão pode alcançar 4 a 6 centímetros, produzido por jumento. Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.
Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado.

Itambé de Mato Dentro, 19 de novembro de 1899.

(a) João Alves Júnior


>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

55 anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura,
mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado,
repousas suavemente no pequeno cemitério do Itambé. Mas teu anúncio continua
modelo no gênero, senão para ser imitado, ao menos como objeto de admiração
literária.
Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem. Não escreveste
apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não
a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro
recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam.
Formulaste depois o raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste
um belo e nítido retrato da besta.
Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo
“de todos os seus membros locomotores”. Nem esqueceste esse pequeno quisto
na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e
histórico atribuiu com segurança a um jumento.
Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do
povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi
roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse
cálculo”. Revelas a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo
que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e
desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.
Finalmente, deixando de lado outras excelências de tua prosa útil – a
declaração positiva: quem a apreender ou pelo menos “notícia exata ministrar”,
será “razoavelmente remunerado”. Não prometeste recompensa tentadora: não
fazes praça da generosidade ou largueza: acenas com o razoável, com a justa
medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e
entregues.
Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves
do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la
com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a
descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de
objetos e animais perdidos na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa
precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude
crítica. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem-feita, que se pode manifestar
até num anúncio de besta perdida.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

(Seleta em prosa e verso. José Olympio Editora, 1973, p.23 apud Faraco e Teza.
Oficina de Texto. Curitiba: Livraria do Eleoterio, 1999. p.31-2)

FONTE: http://coralx.ufsm.br/depeco/doc_docentes/doc_Jose_Lannes_de_Melo/Anuncio_Joao_Alves_Drummond_Micro_II.pdf

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